30 de maio de 2015

Crianças que dormem com os pais: a quentinha e perigosa cama da mamãe

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Émuito comum que os filhos pequenos apareçam no meio da noite à procura de um cantinho na cama da mamãe e do papai. Geralmente isto ocorre entre os 2 e 5 anos. Mas será que permitir que eles se aninhem entre os cobertores dos pais é uma atitude saudável? O que fazer quando isto acontece?
A criança pequena ainda não tem a sua individualidade amadurecida. Quando ela acorda no meio da madrugada, ela se sente sozinha, desamparada, e ficará tranquila quando estiver próxima dos pais.
Uma atitude interessante nesta situação seria acolher esta criança por alguns minutos com carinho e, posteriormente, levá-la de volta para a cama dela – mesmo que isto implique em fazer este trajeto várias vezes… e não vale levar a criança e dormir na cama dela! Caso necessário, melhor seria ficar alguns minutos em uma cadeira a seu lado.
A criança precisa vivenciar que seus pais estarão sempre dispostos a protegê-la, mas que cada um tem o seu espaço na constituição familiar.
“Ah”, diriam alguns, “mas é tão bom dormir com meu filho, ele é tão indefeso, ele chora desesperadamente e eu acabo cedendo, é muito mais prático deixá-lo dormir comigo, que mãe ou pai eu seria se deixasse meu filho (ou filha) sozinho naquele quarto escuro, frio, solitário… e eu já fico tanto tempo longe dele, no trabalho”. Estas são justificativas muito comuns ouvidas dos pais, e por detrás delas há justamente uma intenção de resolver suas próprias questões emocionais conflituosas. Mas isto já é um assunto para outras conversas.
Quando é permitido que os filhos permaneçam na cama de seus pais, contribui-se para que a criança venha a desenvolver inúmeros conflitos na sua vida adulta. Vejamos alguns deles:
Todos já para as suas camas!
Todos já para as suas camas!
Quando o bebê nasce, ele não tem formada a sua individualidade; ele não formou ainda o seu Eu. Há uma indiferenciação entre o bebê e o mundo (ou seja, ele não sabe a diferença entre ele e o outro), e principalmente entre o bebê e aquele que exerce o papel de cuidador/cuidadora – na maioria da vezes a mãe (o bebê se percebe colado à mãe). Quando a mãe age de maneira superprotetora, não permitindo que este bebê comece lentamente a se afastar dela, ela pode dificultar a formação do Eu. Esta ligação simbiótica entre mãe e bebê pode contribuir para que a criança tenha dificuldades em se relacionar com o que – e quem – estiver fora desta relação, causando inseguranças, dependências, e até mesmo, em casos  extremos,  comportamentos com características autísticas. “Mas tudo isso só porque durmo com meu bebê na cama?”. É que, geralmente, uma mãe que não permite que seu bebê durma em seu próprio quarto também, sem se dar conta, acaba tendo atitudes simbióticas durante o dia. Dormir com o bebê, neste caso, é só um sintoma.
Além disso, durante a formação psíquica da criança, ela necessita receber na medida certa amor e limites. Excesso de proteção vai gerar uma criança dependente e insegura, que sempre precisará de alguém que a complete. Ela  poderá se tornar um adulto fixado a uma fase infantil onde recebeu excesso de aconchego.
Ainda há outras questões: a estruturação da personalidade e a orientação do desejo se forma na primeira infância. Uma das bases da psicanálise – o complexo de Édipo – está intimamente ligada a esta estruturação. Segundo Laplanche e Pontalis, o complexo de Édipo consiste em um “conjunto de desejos amorosos e hostis que a criança sente em relação aos pais (…), [e] apresenta-se como na história de Édipo-Rei: desejo da morte do rival que é a personagem do mesmo sexo e desejo sexual pela personagem do sexo oposto”. Assim a criança (entre 4/6 anos) pode inconscientemente desejar o desaparecimento do parental do mesmo sexo para poder ficar, de forma fantasiosa, com o parental do sexo oposto: o filho quando dorme na cama quentinha com a mamãe, concretiza um desejo fantasioso de ter a mãe e afastar o pai. Para que, neste caso, o menino possa se tornar um homem que venha a desejar e conquistar outras mulheres e não desejar mais a mãe, ou seja, superar este complexo, faz-se necessário que haja uma interdição desta fantasia pelo pai. É preciso ficar muito claro que a mamãe é a namorada do papai. E o mesmo vale para as meninas.
Crianças que dormem regularmente na cama dos pais ainda acabam interferindo na intimidade do casal: ponto para a criança sedutora!
Voltemos ao nosso título. A caminha da mamãe ou do papai pode ser muito agradável, mas se constitui em uma perigosa armadilha na formação do desejo sexual e da personalidade da criança. Ela deve ser levada a perceber que a caminha quentinha da mamãe é para o papai.

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